08/11/10

Hugo Gonçalves

"Elogio da crise

Portugal tem medo e deprime-se mas esta pode ser também a nossa oportunidade. Já passámos demasiados anos embalados no conforto dos carros, dos telemóveis e do deixa andar. Não queremos desperdiçar mais oportunidades. Com a crise surge a metamorfose.
Esta história começa nos Estados Unidos e acaba em Portugal. E mesmo que não pareça ainda pode ter um final feliz. Depende de nós.

Tragédia número 1: o comediante norte-americano Grouxo Marx ficou sem 240 mil dólares ("Podia ter perdido mais, mas era todo o dinheiro que tinha", disse Grouxo) quando a bolsa de Wall Street se desmoronou em 1929. Um dos seus amigos, Max Gordon, assessor financeiro, ligou-lhe. Max disse as últimas palavras e deu um tiro na cabeça.

Tragédia número 2: 70 anos mais tarde, em Dezembro de 1999, eu estava na Venezuela para escrever sobre as inundações e as derrocadas que mataram mais de 15 mil pessoas: as chuvas tinham destroçado os morros onde antes se equilibravam milhares de barracas; verdadeiros rios de lama empurraram carros, pessoas e casas até ao mar, despedaçando tudo contra os hotéis de luxo e as mansões de praia da alta burguesia de Caracas. No país que acabara de eleger o comandante socialista Chávez, era uma estranha forma de a natureza explicar a luta de classes. Eu, jornalista em fim de estágio, que ainda usava sapatos de vela, comprei o bloco de apontamentos que mais me aproximasse do jornalismo dos filmes "Terra Sangrenta" e "Os Homens do Presidente". Tinha boas intenções, mas no final dessa semana de reportagem percebi que, por mais empenho literário que tivesse, haveria coisas que nunca conseguiria contar com suficiente precisão emocional. Tinha apenas de as viver: como a presença irremovível do cheiro dos mortos espalhados pela praia e misturados com o lixo - um cheiro dolorosamente doce que se instalava no céu da boca e subsistia mesmo depois de lavarmos os dentes.

Numa estrada de terra onde as pessoas caminhavam em busca de um campo de damnificados - assim lhes chamavam os jornais venezuelanos -, quis fazer perguntas a um homem que transportava um pequeno frigorífico. Tinha perdido a mulher e os filhos, soterrados dentro de casa. Sobrara-lhe aquele electrodoméstico que acabara de pousar na lama. No fim estendeu-me a mão e, como se fosse eu que precisasse de estímulo, despediu-se: "Buena suerte, amigo, siempre p''alante." E adiante foi, com o frigorífico às costas.

No seu discurso de vitória, há dois anos, Barack Obama avisou que as coisas não iam andar bem no futuro: "Duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira num século." O mundo encolheu-se, tossiu, teve dores. Uns aguentaram-se outros caíram de joelhos. Portugal parece um paciente depressivo que nem consegue tomar a medicação. E eu pondero se esta crise não será antes a nossa oportunidade. Pergunto-me: continuamos na vida em loop ou abrimos a pestana?

Nós, os que nascemos depois do 25 de Abril, nunca tivemos uma causa geracional. Somos os doutores e os engenheiros que queriam que fôssemos, somos os primeiros filhos da classe média, somos os irmãos anónimos de Tyler Durden, de "Clube de Combate". Temos a sua desilusão precoce, embora nos falte o inconformismo incendiário, porque temos sempre a desculpa de que há alguma coisa melhor a passar na televisão. Senhoras e senhores, Tyler Durden: "Na história somos o filho do meio. Não temos um propósito, um lugar, não temos nenhuma grande guerra, nenhuma grande depressão; a nossa grande guerra é espiritual, a nossa depressão são as nossas vidas."

Mas a depressão chegou.

Nós, os filhos do pós-revolução, crescemos com televisões a cores, jogos de computador, os videoclips da MTV a açucarar-nos a vida. Nunca estamos sozinhos - os telemóveis, os sms, o messenger, o facebook. Recebemos o conforto que faltou aos nossos pais. Trabalhamos num escritório com ar condicionado e wi-fi, numa rua com dezenas de multibancos. Estamos sempre na vanguarda da superfície das coisas - o mp3, o plasma para a sala, a assinatura da Sport TV. Podemos viajar, ler jornais estrangeiros na internet, encomendar livros de Inglaterra, comer massas tailandesas. Queremos ser intérpretes do aforismo moderno: pensa globalmente, actua localmente. Mas as nossas maiores emoções colectivas são partilhadas diante de um jogo da selecção nacional. As nossas maiores emoções pessoais precisam de ser intensificadas com desportos radicais, com o consumo de drogas, com o sexo a abrir, com a esperança de um amor que não resulte no modelo de família protagonizado pelos nossos pais. No entanto, tantas vezes os copiamos...

Habituámo-nos a ver personagens como Valentim Loureiro ou Alberto João Jardim como figuras cómicas em vez de como desastres para a nação. Cruzámos os braços. Não fomos votar no referendo do aborto. Comprámos, por fim, a casa. Crescemos entre a abundância parola dos centros comerciais e o medo do risco. O medo: esse legado de uma ditadura tão insuficiente como pacóvia, que se agarra a nós como um polvo no cio. Portugal: o país de rabo entre as pernas, pobre, mas que se comporta como novo-rico.

Deixámos de acreditar que o mérito abre caminho, passámos a vida a empurrar elefantes na areia para chegar a algum lado, vimos como pagar por baixo da mesa compensa enquanto sucateiros, autarcas, empreiteiros, banqueiros, ex-ministros e caciques rasgavam o país com prédios encavalitados e envelopes sujos de dinheiro.

Dizemos que, mais de um século após terem sido escritas, as análises de Eça de Queirós ainda nos descrevem. Dizemos, sim, dizemos. E que fazemos? Ouvimos Saramago explicar porque escreveu "O Ano da Morte de Ricardo Reis". Contou ele que pegou numa frase do heterónimo de Pessoa - "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo" - e quis perguntar ao autor se em Portugal, naquela década de 30, numa Lisboa fraca nas ambições, cinzenta nas caras e asfixiada no cérebro, bastava estar contente diante do espectáculo do mundo, sem fazer nada. Eu pergunto: e hoje, basta? Em todo este tempo, do D'Artacão à Luciana Abreu, do Pinheiro de Azevedo ao José Sócrates, do telefone de disco ao telemóvel com GPS, parece-me que alguma coisa se nos escapou, que alguma oportunidade se perdeu, que deixámos que nos enganassem, que pedimos para sair do barco e fomos para casa, muito mais confortável.

Com a crise nasce a oportunidade - de meter um fundo a este fundo. Chega de justificar qualquer falha com "isto é Portugal, pá". Seja o café que vem frio, seja o dinheiro que desapareceu do banco ou a impunidade sem vergonha, não queremos ouvir mais a desculpa "isto é Portugal, pá". Não serve.

Vocês deram-nos a liberdade, o ensino superior democratizado, o serviço nacional de saúde, os empréstimos à habitação. Nós agradecemos. Obrigado. Temos agora o mínimo necessário para dar o passo seguinte e não temos medo de assumir as nossas insuficiências. Não temos complexos de inferioridade. Sabemos que há muito a fazer. Mas queremos mais que um carro desportivo e o maior centro comercial da Europa e telejornais de hora e meia. Também já não somos fatalistas, nem desgraçados, nem nos resignamos diante da tristeza como se fosse uma marca genética. Isso, acreditem, já não nos diz nada.

Em breve, caso a depressão económica nos arrase, deixaremos de ter subsídios de férias e segurança social e ar que se respire. Em breve seremos mais frugais, mais sensatos, obrigatoriamente mais activos. Precisamos muito desta crise.

O Empire State Building, por exemplo, foi construído durante a depressão dos anos 30. Picasso estava exilado na capital francesa quando Franco deixou que a força aérea alemã bombardeasse uma aldeia no País Basco. Depois Picasso pintou "Guernica". O trabalho de Nelson Mandela não foi nada facilitado pelos 27 anos que passou na prisão. Mas a sua perseverança durou muito mais que esses 27 anos de cela. Dizer que os tempos de crise estimulam grandes ideias e mudanças não é fazer nenhuma descoberta inédita. Os homens precisam de superar as suas circunstâncias - muito bem explicado (e tão duramente) na frase que Orson Welles acrescentou ao guião do "Terceiro Homem", escrito por Graham Greene: "Em Itália, durante os 30 anos dos Bórgias, houve guerra, terror, sangue, mas produziram Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça houve amor fraternal, 500 anos de democracia e paz, e o que produziram? O relógio de cuco."

Não queremos guerra nem sangue, mas queremos o tempo que nos pertence. Sim, também temos culpa, também já confundimos o que é essencial com o que é acessório, já conduzimos bêbedos, já nos drogámos mais que a medida, já fizemos demasiadas coisas pela metade, já preferimos o conforto inconsequente ao prazer de fazer o que realmente gostamos. Houve dias, meses, anos, em que não crescemos quase nada. Mas um país que se está a cagar para tudo é um país de merda. E nós não queremos viver nas latrinas.

Sabemos que estamos mais bem preparados, sabemos que temos a força nas pernas, a resistência no coração e o brilhantismo na cabeça. Este momento é nosso, saiam da frente. Vamos ser melhores políticos, melhores pais, melhores cidadãos. Seremos muito mais exigentes, simpáticos, curiosos, divertidos, disponíveis, ambiciosos, inconformistas. Deixaremos de encolher os ombros quando nos responderem "isto é Portugal, pá". Não seremos indulgentes, nem passivos, nem mandriões. Não precisamos de ser os melhores da turma. Mas queremos chegar a casa, ao fim do dia, e dizer: "Fizeste bem, amanhã há mais." Fighting the fight, percebem?

Há quase 80 anos o amigo de Grouxo Marx matou-se com um tiro na cabeça e evitou assim cruzar uma década de depressão económica e a guerra mundial que se lhe seguiu, enfim, uma vida inteira. Há quase dez anos um venezuelano com um frigorífico às costas decidiu seguir para diante sem família, sem nada. Qual destas duas histórias nos convence mais? Qual é a nossa resposta quando a tragédia ou a crise ou o conformismo tornam as nossas vidas insuportáveis?

Sabem quais foram as últimas palavras do amigo de Grouxo Marx, ao telefone, antes de disparar a pistola, referindo-se ao descalabro da bolsa? "The joke is over."

Também aqui chegou o tempo de se acabar com a palhaçada. O que ainda falta fazer não pode esperar nem mais um dia."

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