" Escrevi isso quinta. É sobre teatro, sobre uma peça que esta em cartaz, sobre várias que estão e que estiveram. Sobre uma coisa que incomoda. espero que não só a mim. É um desabafo e que talvez arda um pouco em alguém, espero que não muito.
Um apelo à “RESPOSTA”
Ontem, quarta feira 28/10 fui assistir a uma peça de amigos, “ponto de fuga”. Bom espetáculo, vale a pena ver mais um bom trabalho de Rodrigo nogueira( texto e direção dessa vez) com um elenco que defende bem o trabalho.
Não consegui parar de pensar em uma coisa que veio a minha cabeça não pela primeira vêz. Uma coisa que penso a algum tempo sobre o teatro que a gente ta fazendo. Na verdade me parece um defeito pouco notado por ser pouco considerado talvez. Difícil de resumir em uma definição mas eu vou tentar: a falta de resposta.
Explico, e pra isso vou usar um exemplo engraçado que aconteceu ontem mesmo em cena. A atriz Liliane Rovaris ( que defende bem seu personagem antes de qualquer coisa. Faz bem) em um dado momento do espetáculo proporcionou uma passagem curiosa em meio a uma cena de três personagens no qual a dinâmica acelerada e o ritmo do dialogo eram visivelmente uma opção estética da direção.
O que teria de acontecer aparentemente: A personagem , que é bem afetada e falastrona, em um dado momento esta diante de um móvel e em um movimento de gargalhada ,ou algo parecido, tomba a cabeça pra frente e bate no patamar do móvel, em seguida diz algo como “ai eu bati a cabeça!” e a cena segue no dialogo acelerado falando de outra coisa.
O que aconteceu: chegou a hora da marca, e a atriz fez seu movimento e deu sua fala “Ai, bati minha cabeça” Só que não tinha batido. Não tinha tocado na mesa, não produziu som nenhum de pancada, e no entanto disse a frase. Um hiato depois, ao se tocar que n tinha batido a cabeça disse algo como “quase bati, na verdade”. A falta de som de batida, a cara da atriz depois da ação corrigindo o que tinha dito e a reação de pessoas da equipe que estavam na platéia deixaram claro que ela tinha errado ao não bater a cabeça, que tinha se sentido mal de ter mentido para o público ao dizer que tinha batido e que curiosamente pôs o caco dizendo que “quase tinha batido”( tudo isso em 2 segundos!!). Ela conseguiu tirar uma gargalhada de uma atriz , do seu diretor e de algumas pessoas na platéia que entenderam a coisa toda. Inclusive minha gargalhada.
Foi bem engraçado, essas coisas acontecem, a gente erra em cena e fica vendido...tudo isso. Normal. Mas o que eu quero atentar aqui é para o seguinte. Mesmo ela não tendo batido a cabeça, disse - como esta no texto- que tinha batido, imediatamente em cima da ação. Ponto pra ela, ao meu ver, em ter sido sincera com o público depois. Mas porque ela não mudou a frase para não mentir pro publico antes de dizê-la? O ritmo era tão frenético que ela deu a fala antes de perceber que não tinha batido. Não acho que seja por um erro pessoal da atriz, não. Será que não se deve ao fato da velocidade da cena ser maior do que o da compreensão, do dialogo? Isso encomendado pela direção. Alias, esse termo- RITMO- não é meio perigoso as vezes?
Eu acompanho, o trabalho do Rodrigo nogueira a algum tempinho( falando especificamente do autor), já vi alguns dos textos dele montados e inclusive já dirigi um monólogo curto de sua autoria. Gosto. Viu Rodrigo, Eu gos-to!!! Assim como acompanho o trabalho do Jô Bilac e do Pedro Brício por exemplo. Ambos são autores da nova geração e tem uma linguagem própria, uma cara. No caso do Rodrigo, a dinâmica e a aspereza dos diálogos é talvez uma das características mais marcantes.( entre outras coisas como a carpintaria e a riqueza dos assuntos) “play” e “Tempo.Depois” por exemplo eu acho trabalhos muito ricos.
Mas, essa dinâmica do texto, do dialogo, que era rica no “Play”, em “Os sonhadores” e agora no “Ponto de fuga” quando transposta para a cena gerou em alguns momentos, nos 3 casos, uma velocidade de dialogo que as vezes me da a impressão de ser mais rápida do que o dialogo em si, do que a pergunta e resposta. Quando a gente diz que um ator respondeu sem ouvir a pergunta, sabe? É isso. E resulta assim por opção. É uma escolha de linguagem. Pra dar pegada. E ,de uma certa forma, dá.
Mas por exemplo se o dialogo fosse:
A- La fora tem um carro de presente pra você. É azul.
B- Odeio azul, você sabe disso!
Nesse caso o ator que faz B daria sua fala tão colado no final da de seu colega, tão em cima, que não daria tempo dele processar ideia da cor do carro. Provavelmente se A trocar de “azul” para “verde” na hora da cena, B , talvez respondesse, “odeio azul”, ou pelo menos iria gaguejar no meio da fala. Ou, como a Liliane, “ eu odeio azul....heee...verde...quer dizer...eu odeio verde também”. ( LILI, é só um exemplo, tá?! Não fica chateada comigo não)
E no entanto nenhuma das cenas em que isso acontece nas peças é monocórdia, ambos os diretores, das 3 peças, me parecem desenhar bem suas cenas, elas tem pausas onde tem de ter, tônus onde tem de ter e o “mais” onde tem de ter. A história é contada e o texto é bom . Chega na gente. Mas no caso de uma cena com essa pegada acelerada o texto me parece chegar não “por isso”, nem mesmo “com isso” mas, “Apesar disso”. Eu ,como púbico, me sinto fazendo um esforço para acompanhar a cena, como quem assiste um pedaço do DVD em FF e tenta entender a cena, com esforço consegue, mas cansa e não se envolve, logo não da pra fazê-lo por muito tempo com prazer.
E ,por favor, isso não se trata de uma particularidade dessas três peças. Muito pelo contrario!!!!!!!!!!!!! É muito comum no nosso teatro. Ou eu to louco? E talvez seja ate injusto escrever isso sobre essas peças que ,repito, Eu gosto! Acho boas. Muito boas! Assim como respeito as montagens delas no geral. E talvez justamente por isso valha a pena escrever sobre elas. Porque talvez esse fosse um dos únicos pontos passiveis de ressalva.
As vezes n parece que nós estamos mais preocupados com o ritmo do que com a compreensão da cena? Que a cena chegue! “Ritmo” que é palavra emprestada da música( ou pelo menos remete à música. Inegavelmente). Música que não tem narrativa como a dramaturgia. Teatro, eu penso, que tem ritmo sim, mas a gente confunde ritmo no teatro muitas vezes com velocidade....e ai acho que complica tudo. Falta de ritmo as vezes pode ser falta de paixão dos personagens na cena, Falta de impulso para correrem atrás de seus desejos, por exemplo....sei lá, mas não velocidade pela velocidade.
( e olha que isso que eu to apontando é só uma das “formas” de não se escutar em cena. Não só a velocidade é responsável por essa ausência de bate-bola!!)
E escrevo isso e lanço no mundo com esse tom minucioso e explicativo (que pode soar arrogante eu sei) porque não se fala disso!! Não se comenta NUNCA na saída de uma peça que os atores não estavam se ouvindo. Ou quando se comenta é como um problema pequeno!!!! A contracena depende disso, e a absorção e envolvimento com a história dependem da contracena, não?!!! Poucos são os diretores que dizem isso. Que cobram isso. E nós atores não temos essa preocupação máxima. Pensamos a encenação, pensamos o tom dos personagens, pensamos o “figurinocenarioluz” com muito afinco e NÃO NOS ESCUTAMOS EM CENA.
E muitos de nós atores de hoje somos bem encaminhados no estudo dos VIEW POINTS por exemplo!! Ou improvisação em geral.
Uai! Quem estuda VP não passa por um exercício de raia sem pensar na escuta, na resposta cinética e em como as coisas “acontecem” quando nós reagimos aos estímulos externos. E quando recebemos um texto e vamos para a cena esquecemos disso? Quando é ensaiado esquecemos que uma reposta só pode surgir de um estimulo? Numa improvisação o exemplo que dei jamais aconteceria. Você n sabe o que o outro vai dizer e ele diz, “um carro de presente pra vc la fora, é azul” você ouve azul e joga com isso, se responder antes de ouvir é porque respondeu a outra coisa qualquer, não à um carro <span>azul</span> de presente la fora! Na vida, as vezes a gente fala sem ouvir...muito normal. Mas ai n se responde coisa com coisa com o que foi dito antes... n é o caso das cenas que comento. A informação “azul” foi dada pela fala anterior.
Será que isso essa falta de cuidado nossa com a resposta não é um pouquinho responsável pela valorização do improviso no teatro, no cinema e ate pelo sucesso reality show?!( sei que eu viajei um pouco aqui,forcei uma barra talvez.... mas vamos lá pelo menos um pouquinho ). Será que as pessoas não querem MUITO ver o dialogo vivo na sua frente?! será que se não treinássemos responder só quando ouvirmos teríamos a mesma força que as cenas do Tropa de elite 2 conseguem nos cinemas! Que é improviso. Não da pra se desprender da tela em uma cena sequer. Tá, tudo bem, um exemplo de cinema em comparação com o teatro é complicado. São processos diferentes, outros recursos para nos prender a atenção..... Mas aqueles diálogos, não por serem grande literatura mas por serem vivos, diz pra mim que aquilo não é foda!
Mas “In on it”, por exemplo ,também é! É muito bem atuado, dirigido e escrito e é foda todo dia. Com uma escuta incrível. Com contracena. E era pensado por um autor. No caso acho que a dramaturgia era fruto de criação coletiva, de impro Tb, mas fruto trabalhado , retrabalhado e definido em texto. É diferente de subir no palco e criar na hora.
Gosto muito da impro, faço , admiro e acho que temos que continuar fazendo. mas não é a nossa única saída para escuta cênica. Não pode ser. Como dizem: você não improvisa Shakespeare! Não sai aquilo no impulso da impro. Nem Nogueira, nem Bilac, nem qualquer bom autor com estilo que tenha pensado, repensado escrito e reescrito seus textos.
Continuemos com os autores, poucos que temos, produzindo e continuemos dizendo seus textos em cena, mas com mais escuta, e por conseqüência, com mais resposta.
“Quem escreve aqui”
Acho que escrevo isso, esse desabafo,por estar entalado a algum tempo. Porque sou um apaixonado pela cena assim como a maioria de vocês que lê. E acho que estou entalado justamente pelo nosso costume de descrição total quanto a crítica alheia. Não nos comentamos, não nos ajudamos a melhorar. Ficamos magoados com críticas negativas. Tristes tá certo, mas porque magoados?!?! Eu sei, eu fico Tb. Porque? Vamos parar com isso? Nunca escrevi algo com a intenção de ser lido por muita gente. Mas isso eu quis jogar na roda. Sei que pode arder por ai. To topando isso.
Esse texto, que horas parece arrogante, dono da verdade e que resolveria todos os problemas do teatro(óbvio que não!) é na verdade um grito de amor. De quem quer bem. E imagino que pareça Tb que eu sei como fazer essa coisa muito bem, de escutar em cena. Não sei bem não. Mas me preocupo. Me preocupo em escutar, me preocupo quando vejo que não escutei, o que acontece pra caralho, Me preocupo quando estou dirigindo alguém que não escuta e fico mais preocupado ainda quando vejo que me preocupo quase sozinho. Será que sozinho? Por isso escrevo. Falem... eu to sozinho? A cena contemporânea tem realmente alguma coisa mais importante do que a contracena e eu tô velho? Vejo por ai ,sim, outras formas de teatro, quando a dramaturgia é pensada como uma outra coisa, e a narrativa é de outra ordem. N sei se gosto, mas respeito e ele ta aí. Mas n é o caso dessas peças que comentei. Essas tem personagens, carpintaria, história....e a necessidade de contracena, não?
Escrevo também como uma forma de chegar mais perto, de falar e discutir de dentro, de levantar a lebre....de querer estar mais perto do que estou, de querer estar fazendo mais Nogueiras e Bilacs e etc etc etc. de sair dessa minha defesa de quem pensa esse teatro e não estuda o quanto deveria, não procura os parceiros tanto quanto deveria, enfim, não se enfia o quanto deveria. Quero me enfiar mais, quero trabalhar com todos os envolvidos nas coisas que eu citei aqui. Queria estar em cena em todas essas peças que citei aqui!
E escrevo ainda por achar que podemos estar mais perto do que estamos, todos. Discutindo, por exemplo, isso aqui.
Enfim,
Miguel Thiré "