08/11/10

Friedrich Dürrenmatt, 1971.

Quanto mais eu envelheço, mais me são a literatura teatral, a retórica e as frases bonitas odiosas. Eu renuncio cada vez mais aos artifícios dramatúrgicos que forçam os actores a representar em palco pessoas que, através das suas palavras, se tornam exibicionistas. Tento mostrar tudo, dramaturgicamente, de forma cada vez mais simples, tornar-me cada vez mais económico, omitir cada vez mais, e simplesmente sugerir. A tensão entre as frases tornou-se-me mais importante que as próprias frases. A minha dramaturgia desenvolve-se entre as frases, não nas frases, desenvolve-se no actor. Confio mais no seu impacto do que na literatura. Eu ponho-lhe frases nas mãos que não pretendem ser mais que o resultado final da sua representação. Eu integro a literatura na arte de representar e não a arte de representar na literatura. O palco, para mim, torna-se um veículo teatral, não um pódio literário. Ainda mais extremo: eu já não escrevo as minhas peças de teatro para actores, eu componho-as com eles. Eu abandono a literatura em benefício do teatro, literatura fazem hoje os críticos. Isso leva a que cada vez mais eu elimine a cenografia, estimula-me a procura de chegar a um teatro só com o actor que trabalha apenas com os adereços de que precisa para representar. O meu palco é um Teatro de Adereços, não de Cenário. Só assim me parece ser justificável o teatro actual, um teatro que se auto-reduz.

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